segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Dona da própria banda


Ícone da cena rock de Goiânia, Lia Lemme lança carreira solo e fala de transição entre estilos e das dificuldades de liderar sendo mulher


POR LEON CARELLI

Música roubada, barracos de banda e casamento com o baixista. Com uma trajetória artística que teve início ainda na infância, a cantora e compositora Lia Lemme – ex vocalista das bandas Four Escapers e Giro Temporal – vem construindo um repertório carregado de introspecção e inconformismo sem abrir mão da delicadeza e da beleza inerente à fragilidade da condição humana. “Gosto de compor sobre aquele sentimento que te angustia e você não pode falar”. Lia começou a compor sua primeira música aos oito anos e aos 14 já subia aos palcos – escondida do pai – fazendo covers e animando festas em Goiânia. Apesar da autoconfiança que conquistou ao longo da carreira, a cantora revela que enfrentou dificuldades para tomar decisões em sua última banda, o que resultou na síntese de sua carreira solo marcada pela música “Silverado”. Ainda na adolescência a cantora também passou pelo trauma de ter uma de suas músicas roubadas por um professor de violão.


Ouça "Silverado" de Lia Lemme


Novos rumos


Apesar de ser conhecida como uma cantora de rock, Lia contou ao “Depois do Bosque” que não possui nenhum tipo de limite musical quando o assunto é gênero. “Você acredita que comecei a escrever música sertaneja também? Estou tentando entrar no ramo de venda de músicas, mas não é fácil”. Durante nossa conversa, que se prolongou por algumas semanas, ela compartilhou canções de rock, blues, sertanejo e disse que não para por aí. “Gosto de flertar com gêneros diferentes. Tenho gospel, metal, pop rock. Deixo a minha mente fluir sem preconceito”. 


Professora por formação doutora na área da educação, Lia se mostra flexível até quando o assunto é vida profissional. Para ela, tudo está interligado. “Faço muitas coisas ao mesmo tempo. O projeto musical é a parte terapêutica do processo. A minha cabeça toca uma playlist de músicas imaginárias o dia todo e eu não consigo escrever todas essas músicas. Às vezes, fico muito chateada por perder algumas melodias marcantes, mas faz parte da correria”.


Lia e os membros da primeira formação da Four Scapers


Desabafos


A experiência de Lia com sua última banda, A Four Escapers foi bastante tumultuada. Além de desentendimentos decorrentes do que define como “briga de egos”, ela passou por dificuldades em relação à aceitação de suas composições pelos colegas de banda “Eu ficava muito triste pois sentia que as minhas músicas tinham um potencial legal, mas quando eu levava pra banda eles não prezavam pela qualidade dos arranjos e eu via que eles estavam fazendo com má vontade por não quererem gravar uma música que era minha”.  De acordo com ela, existia ainda uma divergência em relação aos temas das músicas. “O Inácio, que é o guitarrista, também compõe, mas é um estilo bem diferente do meu. Tem uma pegada mais literal da vida. Eu já abordo o lado introspectivo porque falar sobre o dia a dia é muito chato”. 


A cantora desabafou ainda que, em sua perspectiva, “era difícil ter uma mulher como líder vocal e letrista. Mexe com o ego do macho alfa”. Juntos eles gravaram cinco músicas entre 2022 e 2024 e decidiram encerrar o projeto em abril do ano passado, sem previsão de volta no momento. “O Four Escapers é a banda das tretas. Se quiser passar perrengue é só voltar a tocar junto”. Apesar das adversidades a Four Escapers conseguiu gerar bons frutos, como o clipe do single de estreia, “Abstrai”, e o alcance internacional, com canções tocadas em rádios dos Estados Unidos e América Latina.



Arte do início dos anos 2000, criada por Henry Wilker

Cápsula do tempo

Para dar início à nova fase de sua carreira, Lia Lemme contou com um recurso bastante comum em obras de ficção científica e que já estava anunciado no nome de sua primeira banda autoral: um Giro Temporal. “Silverado”, composição de 2001, aguardava despretensiosamente ser direcionada à máquina do tempo que a colocaria diante da cantora em 2024. Essa por sua vez se viu no impulso de dar à música uma nova roupagem. Para isso a artista contou com o apoio de um velho aliado de introspecções: o guitarrista Tiago Brito, que segundo ela era muito jovem na época e acabou saindo da banda devido a uma oportunidade de estudos. O reencontro 23 anos depois trouxe uma segurança que ela não pôde experimentar com sua última banda, a Four Scapers. Além de “Silverado”, outras três músicas foram revisitadas pela dupla e aguardam na fila de embarque para o próximo giro temporal.


O insight para a composição de “Silverado” surgiu numa fazenda em Cocalinho no Mato Grosso sob calor escaldante e um ataque de insetos. “Eu estava na rede quando me veio a inspiração. Saí correndo para pegar papel, caneta e o violão”. Acometida pelos bichos voadores e pelo Sol, Lia se virava como podia para se abstrair da turbulência e alcançar a concentração necessária para chegar aonde queria. O som de voz e violão felizmente captou a atenção de um familiar que também estava no local. “Meu primo vendo o meu sofrimento artístico, me chamou para terminar a música dentro da caminhonete do pai dele, a Silverado, ligou o ar e eu consegui tirar a letra e a melodia dentro dela”. O conforto causado pela máquina – que tinha a potência necessária para blindá-la das intempéries matogrossenses – conquistou o coração da artista que decidiu batizar o feito em homenagem à ela.


Henry, Lia e Fernando, membros da banda Giro Temporal


Além de representar um novo começo na carreira de Lia, “Silverado” também simboliza o início de um processo de cura na vida da cantora que aos 18 anos sofreu um duro golpe contra sua criatividade e talento. Após matricular-se em um curso de violão, teve uma de suas letras roubadas pelo próprio professor. “Eu costumava escrever as músicas nos cadernos e o meu professor de violão encontrou uma das letras e registrou no nome dele. Eu fiquei tão chateada que parei com o curso”. Tal agressão gerou na jovem um bloqueio que acabou afastando-a das composições em português. “Por ter tido a letra roubada, comecei a escrever as músicas em inglês. Só voltei com ‘Silverado’”. No ano seguinte veio a melancólica “Monólogo” que também entrou para o repertório da Giro Temporal.


Apesar da curta duração a banda conseguiu reforçar sua imortalidade no espaço-tempo através de uma demo produzida antes de um longo período de hibernação na carreira artística de Lia. As músicas foram gravadas no quintal da casa do produtor, seguindo o conceito de ‘banda de garagem’ utilizado por vários outros grupos de Goiânia na época, que se viam sem muito recursos e poucas oportunidades em grandes gravadoras. Outra herança desse período se deu na vida pessoal da cantora: o casamento com o também músico Henry Wilker, que além da missão de tentar fazê-la feliz a partir de então, acabou tomando para si a responsabilidade de concluir as gravações da demo, tocando todos os instrumentos com exceção da bateria. Gentilmente a cantora apresentou ao blog Depois do Bosque quatro faixas dessa empreitada: Além de “Monólogo” temos “Cicatriz”, composta por Henry, a acústica “I’ll be there for you” e “I don’t wanna stay” – que só pelo título já elucida a jornada de escapismo lírico à qual Lia vem dedicando seus impulsos criativos desde então.


Obstáculos


Vários fatores influenciaram para que Lia se afastasse da carreira artística por um longo período. “Acabei me casando com o baixista [da Giro Temporal], passei no concurso e colocamos um hiato de 18 anos no projeto musical”. O concurso citado rendeu a ela uma vaga como docente no Colégio Estadual do setor Jardim Europa onde lecionou Português e Inglês durante boa parte da pausa. O bairro da região sudoeste de Goiânia é cenário constante no dia a dia da artista desde a infância. Quando a Giro Temporal começou, o Terminal Bandeiras ainda parecia um grande mercado aberto e os primeiros sucessos da dupla Bruno & Marrone eram pulverizados dos carros e comércios para as ruas nas rádios e nos toca-fitas.


Down, terceiro single do grupo Four Scapers (Arte de Henry Wilker)


Outro local marcante na vida de Lia foi a gigantesca Los Angeles, nos Estados Unidos, onde viveu de 1996 até 2000. Na metrópole estrangeira, além de assimilar o choque de cultura que é imergir numa sociedade tão distante das suas origens, a cantora também pode se familiarizar com um novo idioma, o Inglês, que acabou lhe servindo como um refúgio criativo em várias fases de sua vida, como quando foi roubada por seu professor e décadas depois quando compôs “Down” lançada pela Four Escapers em 2023. Na época, Lia havia acabado de passar por assédio moral no trabalho – tipo de abuso bastante recorrente na vida das mulheres. “Cada uma das minhas músicas tem um pedacinho da minha história. São muito genuínas, despretensiosas. Sempre contam sobre um momento específico da minha vida”, reforça.


Além da vida sempre movimentada na carreira como educadora, outros acontecimentos como a perda do pai em 2009 fizeram com que a cantora prolongasse ainda mais sua volta aos palcos. “Eu simplesmente perdi o interesse na música. Meu pai e eu tocávamos juntos. Quando eu comecei no violão aos 18 ele decidiu voltar a tocar também. Ele e meu tio costumavam tocar e cantar na adolescência”. A maternidade em 2016 também fez com que ela tivesse que mudar o foco, aproveitando ao máximo os primeiros anos de sua cria.


Apesar dos percalços, Lia se sente motivada a prosseguir com a carreira, e experimentar novos rumos. Ao lado de Tiago Brito e do marido Henry Wilker vêm concluindo aos poucos novos projetos, como a sertaneja “Com toda certeza” – que ela compôs em sala de aula:  “Eu acordei com a melodia tocando e apareceu o refrão. Cheguei na escola, coloquei a galera para fazer a tarefa até eu conseguir escrever” – e a mais recente, o blues “Wait”. Ela encara as apresentações ao vivo com bastante ânimo: “É muito bom! É difícil explicar. É aquela sensação de ser diferente, importante. Tocar as pessoas com a música é muito bom”. Como compositora, Lia sente que é uma forma de se colocar diante do mundo. “Viver é o que me motiva a escrever. Tenho dificuldade em expressar oralmente o que eu sinto”. Sobre a convivência com a música e a intimidade que tem adquirido com ela ao longo de todos esses anos, mesmo com todas as dificuldades, Lia é categórica: “Nasci para o público”.