sábado, 28 de dezembro de 2024
Knowle West: onde as casas podem falar
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
Do topo da floresta de Kingswood
Um passeio por Troopers Hill: colina em meio a reserva natural na região leste de Bristol
POR LEON CARELLI
Com um dos pores do sol mais espetaculares de Bristol, mais de 24 espécies de borboletas e uma gigantesca chaminé do século XVIII que se tornou elemento marcante da paisagem, Troopers Hill é um local repleto de história e natureza. A exploração da região pela sociedade inglesa – desde onde se tem registro – se deu por volta dos anos 1600, primeiro como cenário para caça da alta realeza, depois como ponto estratégico durante a Guerra Civil britânica – pois nela enxerga-se boa parte da cidade. A chaminé é remanescente da casa de máquinas de uma usina de carvão e argila, e de lá também foi extraído cobre por volta de 1700. Na configuração atual de Bristol, representa um espaço de lazer e de preservação ambiental onde é possível se exercitar, passear os cachorros, observar a vista, dentre outras coisas.
Há quem conte – e apresente fotos – da presença de veados na região, comumente avistados por perto das margens do Rio Avon. Seriam descendentes daqueles que sobreviveram à caça esportiva da nobreza no período mencionado acima. As raposas, um pouco mais comuns, são vistas durante a noite em locais silenciosos (de longe pois não são muito apreciadoras da presença humana) . Foi um local que frequentei bastante quando morava num bairro chamado Saint George durante 2022. Da minha casa até o topo da chaminé era uma caminhada de menos de meia hora, passando por algumas trilhas em meio à mata fechada. O local, hoje oficialmente uma reserva verde, foi comprado pelo conselho municipal para que fosse usufruído pelos moradores locais em 1956. Apesar do crescimento acelerado de Bristol na época, suas imensas ladeiras e resquícios de pedras acabaram afastando as construtoras, promovendo a manutenção da mata fechada e consequentemente da vida selvagem, o que em 1995 garantiu à colina o status de área de preservação ambiental permanente.
SÃO JORGE
Apesar de ser peculiar por sua própria natureza, que sobrevive no meio da cidade grande, Troopers’ Hill também chama a atenção pelas trilhas que se desenham entrelaçadas como labirintos. Algumas se mostram como descidas íngremes, um tanto assustadoras (verdadeiros buracos) pois é impossível saber antecipadamente onde terminam, todas cercadas por uma infinidade de árvores. Em determinado momento da caminhada, passamos em meio a um lote que funciona como fazenda urbana. Lá encontramos placas que indicam a direção dos campos de morangos, fruta comum em praticamente toda a Inglaterra. Próximo à chaminé, um pouco antes do mirante, foi instalado um parque, com um imenso campo de esportes, um playground, e aparelhos de academia ao ar livre. O site “troopers-hill.org.uk” traz com detalhes a história da famosa Chaminé, que está conectada por um duto até a base próxima do rio. As fundições acessíveis pela porta de tijolinhos da construção histórica ainda pode ser acessada, de acordo com o site, como um “mergulho no chão”.
Minha passagem mais recente pelo local foi em abril de 2024, depois de uma extensa caminhada do centro. Próximo da colina, também na zona conhecida como BS5 (devido ao código postal) também podemos encontrar o Saint George’s Park, com seu lago recém reformado cheio de patos nadando, sua biblioteca pública e seus personagens marcantes da vizinhança, como a conhecida Candy, natural do Zimbabwe e radicada na Alemanha. Ela sempre me perguntava como eu conseguia ficar em casa quando era verão e estava muito quente. O ponto de ônibus ficava exatamente na porta do meu prédio e nos horários de pico estava sempre lotado. Às vezes as pessoas aguardavam sentadas na calçada que tinha em frente à porta principal, e as motos dos entregadores de comida estacionadas em frente à janela de um dos moradores (para que não fossem roubadas) ajudavam a deixar o local ainda mais cheio.
Entre o Parque e o ponto de ônibus, temos a movimentada Church Road, que abriga várias linhas de ônibus (42, 43, 44, 45). Todas elas começam no Centro, que fica praticamente em linha reta de St. George, passando pela Lawrence Hill Station, uma das principais estações de trem de Bristol. A região é bastante escolhida por imigrantes, e a avenida possui cafés e restaurantes das mais variadas origens. Se seguimos um pouco em direção ao fim da cidade, temos uma fonte histórica, a Saint George’s Fountain, onde a rua muda de nome para Clouds Hill Road (em tradução literal, Rua Colina das Nuvens – o que explica a subida, aliás, esse lugar é cheio de inclinações o tempo todo) e dali pra frente segue até o fim da cidade, onde se transforma na rodovia A420 que termina em um trevo que oferece caminho para Bath ou Swindon, cidades próximas de bristol (a última inclusive é onde mora atualmente a ex atriz da globo Ana Paula Arósio, escondida no meio das fazendas).
A TRILHA
Além da saída principal já mencionada, o prédio onde eu morava possui uma garagem como saída alternativa que dava para a Beaconsfield Road, rua residencial pela qual não precisamos andar mais de dois minutos para avistar uma grande construção com o letreiro “The Boots Factory”, uma antiga fábrica de sapatos que teve suas instalações intrigantemente convertidas em um conjunto de flats residenciais, mantendo as características históricas do prédio que remete à Revolução Industrial. Em frente a ela, atravessando a Beaufort Road, o pacato Cemitério de Avonview, que abriga uma soturna sessão dedicada aos combatentes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial, que fica no fim de um extenso corredor, em um dos cantos do terreno. Por ali, um mar de túmulos, alguns datados do século XIX, uma discreta capela e de acordo com um dos comentários deixados na página do google do local, “ótimas vistas de Bristol”. Cruzamos a rua, e a partir de agora as coisas ficam ainda mais interessantes.
Uma bifurcação nos apresenta duas trilhas estreitas. Na primeira vez me questionei se elas serviam mesmo para acesso do público, mas uma pessoa com um cachorro fazendo o trajeto oposto me deu indícios de que era mesmo por ali, assim como dizia o GPS. Um dos caminhos, a Strawberry Lane, acompanha por uns 10 minutos (andando rápido) uma eterna ladeira com vários degraus e desemboca na estranha Crews Hole Road, literalmente às margens do Rio Avon. É um lugar que não recomendo para pedestres, pois não existem calçadas. Além disso, uma ponte meio assustadora e carros passando em alta velocidade. A passagem pela Strawberry Lane é como estar num filme de suspense. Até o cheiro, mesmo próximo da mata, não é agradável pois a pista faz divisa com o muro de uma fábrica de tintas possuído pelo mofo devido à grande umidade. Mas não é nela que devemos ir para chegar ao topo de Troopers’ Hill. O outro braço da bifurcação, aparentemente sem nome mas mil vezes mais agradável e convidativo, corta a verdadeira plantação, num espaço chamado de Jardim Comunitário da Pista do Morango (tradução livre).
Por enquanto ainda não estamos na mata densa e enquanto passamos pela trilha, o que vemos dos dois lados é uma cerca quadriculada que divide a passagem do que na minha percepção parecem ser várias hortas, algumas cobertas como estufas. É por ali que se encontram as plaquinhas com pinturas de morango e setas que apontam para a direção deles. Pés de amora carregados com a fruta – um pouco mais carnuda do que a que encontramos em Goiânia – também habitam o espaço entrelaçadas à cerca. Outras criaturas bastante comuns são as borboletas. Em Troopers’ Hill são mais de 24 espécies: Marble White, Common Blue, Essex Skipper, Speckled Wood, entre outras. Temos ainda o caso da Grayling Butterfly, que segundo o site dedicado ao espaço, parece infelizmente ter sido extintas há algumas décadas. “Infelizmente elas não são registradas na Colina desde o Verão de 1996. Pode ser que o grande incêndio na Colina em 1995 tenha reduzido a sua população de modo que atingiu um número insuficiente para a manutenção da colônia”.
FLORESTA
A primeira pista termina num pátio pavimentado, em meio a um conjunto de casas. Neste espaço vemos a placa que anuncia a Lamb Hill, segunda e última trilha da caminhada. Por aqui seguimos em meio à densa mata fechada. Depois de alguns metros já avistamos um dos pontos turísticos: um tronco deitado que serve para descansar as pernas e respirar em meio à natureza. Dependendo da época, flores com pétalas de cor lilás e amarelo se espalham pelos canteiros do caminho.
Enquanto passamos pela mata densa somos surpreendidos por charmosas porteiras de madeira, parecem estar ali para que ciclistas diminuam a velocidade e acidentes sejam evitados. Ao final da Lamb Hill, chegamos ao playground, último ponto antes da chaminé, depois de uma última subida. A paisagem do topo é mais ou menos assim: esse imenso cilindro de pedras estático em meio aos banquinhos de ferro, cada um com uma placa dedicada a uma pessoa já falecida. A visão dali para Crew’s Hole – o bairro residencial mais próximo da colina, mostra as trilhas brigando com as ladeiras, e ao fundo várias casinhas, algumas literalmente dentro da mata. Os pedestres realmente transitam diariamente por ali, subindo e descendo, com mochilas, cachorros e uniformes, o tempo todo, é parte comum da rotina. Crew’s Hole também evoca um pouco da história da Revolução industrial do Reino Unido, sendo usado a partir de 1810 como cenário para a mineração. Em 1843, aos pés da colina, o famoso engenheiro Brunel instalou uma fábrica de destilação de alcatrão para extrair creosoto, um componente químico que servia como conservante das peças de madeira utilizadas na construção das linhas férreas – peças fundamentais no desenvolvimento industrial do Reino Unido.
No ponto mais alto da floresta de Kingswood, quando já está perto do sol se pôr é bastante comum que todos os bancos, mais ou menos cinco ou seis, já estejam ocupados, e no verão e na primavera, as pessoas ficam espalhadas pela grama, alguns com sua JBL tocando quase sempre música eletrônica, outros com seus cigarros, tradicionais ou eletrônicos, os cachorros quase sempre presentes, sem mencionar os turistas que vêm de todas as partes do mundo parar aqui, cada um com seu ponto de interesse: a guerra, a indústria, a natureza selvagem, a paisagem. Em um dia desses, no topo da colina, dava pra ver o tradicional festival de balões, que contrastavam com o azul do céu e da imensidão que se enxerga em Troopers Hill. Juntamente com o sol se encaminhando para a linha do horizonte e a mata que segue por um longo caminho às margens do rio Avon, temos uma das experiências sensoriais mais impressionantes da real personalidade de Bristol.

















